«

»

jun 30 2017

exupery

Imprimir Post

Os estupros dos Amores-Políticos-Ideológicos ou sobre o mal estar do movimento social frente à denúncia de violência machista

ciranda-do-aborto-jucara-marcal-tulio-villaca-encarnadoPassados dois meses da ocorrência de violência sexual dentro do movimento social de comunicação independente em Campinas, é possível trazer com alguma tranquilidade certas questões – e respostas.

Nesse pouco tempo, muitos vínculos se romperam, muitos espaços se desfizeram. Sabíamos que seria assim pois, para nós mulheres, historicamente foi assim: nossos vínculos se rompem, nossos espaços se desfazem. Nossa humanidade é tolhida e cerceada… pois, para muitos, é prática habitual buscar silenciar e desqualificar a voz feminina. A novidade que anunciamos a amplos pulmões é que já não seremos nós que recuaremos. Nesse texto, responderemos coletivamente a falta de compreensão do que é revitimização da vítima de violência sexual e ao questionamento das práticas que coletivamente foram decididas.

No dia 4 de maio, doze dias após ocorrida a violência sexual, foi deliberado em uma reunião da Semana do Audiovisual de Campinas e da Mostra Luta! a escrita e a veiculação de uma carta aberta denunciando os motivos pelos quais o agressor Valdir Paixão Rodrigues Júnior, conhecido por Júnior, não faria parte das construções e das atividades das Mostras. Até então, as reuniões da SEDA e da Mostra Luta! sempre foram espaço de legítima deliberação, autogestionadas em processos horizontais. Na construção da carta estavam presentes diversos agentes que não se manifestaram contrários a decisão de veiculação da carta pública. Entretanto, após a publicação da carta, parte da organização da Mostra Luta! se posicionou contrária à carta, questionando sua representatividade para dentro do movimento que a tinha encaminhado.

A partir disso, surgiram muitos pronunciamentos direcionados à mulher agredida e ao coletivo do qual ela faz parte – que assinou a carta. Muitas opiniões trouxeram em palavras fervorosas o quanto uma carta com o nome do agressor e a categorização da violência que cometeu era violação de direitos humanos elementares do homem em questão, o quanto uma carta expositiva era violência, o quanto uma carta denúncia era fascismo. Assim, defender os direitos do AGRESSOR se transformou em justificação para constranger a agredida através de falas públicas fervorosas que apontavam para a denúncia como falaciosa.

Pois bem, é evidente que nenhum movimento social engajado na luta se permite violações de direitos humanos, ainda mais os comparáveis aos agenciados por estados fascistas. Entretanto, nos parece necessário um olhar mais atencioso para a abordagem proposta.

Estabelecer parâmetros para identificar violações de direitos humanos do agressor, declarando “total solidariedade à agredida” quando a resposta de movimentos sociais feministas é a denúncia da violência e do violentador, é o mesmo que partir do princípio de que na prática somos todos iguais perante o Estado, tendo em vista que é o que está escrito na Constituição brasileira. Trata-se da velha prática de subalternizar o gênero feminino acreditando que esse não é capaz de identificar a contradição entre prática e discurso; entre solidariedade e manipulação.

A proposital ignorância do diferencial dos lugares dos quais partimos enquanto homens e mulheres é a mais completa burocratização da vida. Ou mais conhecida como hipocrisia. Os direitos humanos de uma mulher violada em um estupro não são abordados nesse discurso porque de fato não existem dentro dessa perspectiva. A exposição do agressor impressiona pois o direito à preservação do homem sim, é dado. De resto, de nada nos serve essa “solidariedade”, que mais faz colocar a mulher em um lugar de não sujeito do que de fato lutar com afetividade – sim! – contra as violências machistas às quais estamos todas sujeitas.

E então, surge a pergunta: “como poderia um movimento mobilizar-se como uma força política transformadora se não começa interrogando-se sobre os valores e as normas internamente assumidas que podem legitimar a dominação e a desigualdade neutralizando “diferenças” particulares? (A. Brah).

Ao mesmo tempo, não vimos ninguém que tanto escreveu sobre e sugeriu essas tantas outras opções de fato assumir a proposição de, então, tocar outras condutas. Seriam todas bem-vindas, sem dúvida. Mas julgar a conduta de coletivos que entendem que a exposição faz parte de um processo de luta sem, concomitantemente a isso, colocar em prática o que quer que se proponha enquanto opção a todo esse fascismo, tem nome. Chama-se silenciamento.

Diferente do que a ARTICULAÇÃO DE ESQUERDA diz em sua carta de comunicado sobre a expulsão de Valdir Paixão Rodrigues Júnior, não temos práticas fascistas! Não admitimos que violência contra a mulher seja resolvida numa esfera privada, pois mulheres agredidas ficam expostas publicamente seja pelas marcas físicas seja pelas marcas psicológicas que desestabilizam sua relação com o mundo. O agressor fica anônimo! Assim, um homem ao assumir a postura de agressor de mulheres deve assumir social e publicamente a condição de agressor, pois somente ao admitir isso um homem pode iniciar o processo de abandonar suas práticas machistas e sexistas.

Também nos deparamos com avaliações de organizações partidárias em relação à denúncia e a judicialização do processo. Gostaríamos de sugerir para essas instituições que enquanto conduta cabe a cada uma delas, em uma situação de violência à qual existe a reação, é deliberar quais condutas serão adotadas para dentro de seus grupos, adotando práticas encaminhadas ou propondo outras, nada mais que isso. Não cabe a nenhum partido, a nenhum coletivo, a nenhuma pessoa, em um processo de violência, tentar articular ou dissuadir ações tomadas para evitar o silenciamento da agredida e o fim do anonimato do agressor.

Por outro lado, outros discursos questionaram a veracidade do que estava sendo denunciado, através de argumentos que reafirmam o inquestionável envolvimento do agressor com causas sociais e o lastro consequente de suas articulações revolucionárias, seu estado de debilidade motora devido a um acidente de moto que o deixou acamado, ou de argumentos de companheiros que estavam no local enquanto a violência acontecia e nada perceberam. Nos foi questionado então o que é violência sexual para nós, feministas. Pois bem, sobre isso temos poucas colocações a fazer.

A primeira é que tipificação de violência contra a mulher é demanda de movimento social, tendo em vista a necessidade de dar nomes assertivos aos problemas aos quais reivindicamos políticas públicas eficazes, mas quem de fato tipifica uma violência enquanto estupro é uma Delegada em uma delegacia especializada chamada Delegacia de Defesa da Mulher. Caso a dúvida ainda habite a curiosidade, sugerimos a busca da resposta nessa instituição.

A segunda é sobre o julgamento que passa a agredida, tão feminista, que não se retirou do lugar onde estava, não gritou, não reagiu à violência. “Para agredir, da mesma forma que para se defender de uma agressão, é preciso sentir-se com direito de fazê-lo e para isso são necessárias convicção pessoal e certa proteção social. A agressão de um marido, um irmão ou um amigo, acontece em segredo e amparada na privacidade, mas com um respaldo de parentesco ou familiaridade, com a confiança e a coesão, com a certeza da compreensão, a mediação ou o silêncio da comunidade. (…) Os homens, para impor uma vontade sexual sistemática ou circunstancialmente, não atuam nunca, nem ontem nem hoje, por impulso ou nenhuma disfunção ética ou psicológica, não o fazem por uma falha educativa ou pedagógica, senão, como assinalamos acima, “por direito”. Da mesma forma que quando uma mulher não se defende, não o faz por debilidade mental ou física, mas por uma ausência de direito.”

O estado de direitos que permite um homem violentar sexualmente sua companheira de militância é o mesmo estado de direitos que permite a outros companheiros serem solidários ao agressor e questionarem a veracidade de uma denúncia. É necessário deixarmos de lado a heteronormatividade para refletirmos e combatermos o estupro e a cultura do estupro, pois a colonização machista e sexista faz com que a violência sexual seja pensada de um ponto de vista heretossexual que leva em conta somete a penetração pênis-vagina.

Todos esses discursos deflagram cúmplices. E para nós, não apenas é cúmplice quem defende explicitamente o violador como também quem, homem ou mulher, cria um clima no qual os violadores seguem mantendo a liberdade de transitarem tranquilos pela cidade, fomentando dúvidas, espalhando vozes e deslegitimando a palavra das mulheres. Cúmplice também é quem, em nome da prioridade política, deixa intactas e inalteradas as condições, os lugares e as dinâmicas nas quais a violação ocorreu.

Sobre Delegacia de Defesa da Mulher, judicialização das relações através de justiça burguesa, política de encarceramento, é necessário pontuar que DDM é a única delegacia que é demanda de movimento social e que faremos uso dessa ferramenta enquanto for necessário – entre os nossos, inclusive. Pois “existe uma dupla moral que faz supor três coisas: a primeira, que é fácil reconhecer os erros dos “inimigos”, mas que a proteção do reconhecimento do “nós” interno ainda é muito forte; a segunda que, todavia, as palavras das companheiras têm menos credibilidade que as dos companheiros; e a terceira, que os maus tratos ainda são percebidos como uma experiência pessoal nos espaços vivenciados e não como parte de um processo político.”

Todas essas colocações contrárias nos fazem pensar que talvez o ideal fosse dar aos casos de violência contra as mulheres um trato de problema privado e pessoal, a ser resolvido entre dois. Quando o que é denunciado como agressão é afrontado como uma questão pessoal onde intervém emoções, o que se entende como um assunto turvo onde não há verdade, senão duas experiências muito distintas de uma mesma situação confusa, então perdemos a possibilidade de intervir politicamente. Há inclusive formas de transladar o assunto a um plano pessoal dentro de uma gestão coletiva. Por exemplo, quando se define que o problema é um assunto particular do coletivo, a ser resolvido de portas fechadas, que é o mesmo que a versão grupal do “roupa suja se lava em casa”. Ou seja, coletivizar não é condição suficiente para fazer política.

A carta, assim como articulação em redes de movimentos feministas, assim como um boletim de ocorrência, assim como debates públicos e culturais sobre o tema, são os tantos “bastas” que nós mulheres temos deixado de silenciar historicamente.

Publicizar a violência faz parte do rompimento de um ciclo de opressão que silencia e perdura, disparando o entendimento de que o que aconteceu – e acontece – faz parte de uma dinâmica social e que assim deve ser tratada, ao contrário da percepção de que violência de gênero deve ser resolvida em âmbito doméstico, como se acreditou por tantos anos – e aparentemente ainda se acredita

Assim, esqueçam a possibilidade de que nós mulheres seremos silenciadas diante de ameaças de processo, que abriremos mão da ação de exposição do agressor, que teremos nossas práticas cerceadas por partidos, que admitiremos a revitimização da agredida. Mais do que nunca afirmamos que “MACHISTAS E SEXISTAS NÃO PASSARÃO!” sejam eles militantes da esquerda, alienado político ou liberal/conservador.

Assinam essa carta:
– Coletivo de Mídia Livre Vai Jão
– Promotoras Legais Populares – Associação Cida da Terra
– Maloca Arte e Cultura
– Coletivo Feminista Rosa Lilás
– Quilombo Urbano O.M.G
– Coletivo de Mulheres Flores do Dic
– Coletiva das Vadias de Campinas
– Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas e Região
– Feconezu Campinas

Link permanente para este artigo: http://midialivrevaijao.art.br/os-estupros-dos-amores-politicos-ideologicos-ou-sobre-o-mal-estar-do-movimento-social-frente-a-denuncia-de-violencia-machista/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

ChatClick here to chat!+