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out 24 2017

Ana Maria Furlan

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Carta aberta à atual organização da Mostra Luta! e população de Campinas

Esta carta aberta tem o intuito de manifestar repúdio à atual organização da Mostra Luta! por silenciar sobre o caso de violência sexual cometido por um dos organizadores da Mostra contra uma de suas organizadoras no primeiro semestre desse ano e por admitir o agressor em seu processo de construção.

A Mostra Luta! foi criada em 2008 com a intenção de exibir e debater vídeos militantes sobre as lutas sociais. Por muitos anos integrou as ações do Coletivo de Comunicadores Populares, cujo um dos objetivos era fortalecer a comunicação popular na cidade de Campinas. Nos últimos dez anos, por meio da participação de diversas linguagens criativas, foram debatidas e fortalecidas as lutas contra a exploração, a concentração de renda, o machismo, o racismo e a homofobia, lutas por terra, moradia, dignidade e justiça social. O objetivo sempre foi fortalecer a luta dos movimentos sociais e populares, por meio da exibição e debate de filmes, exposições e apresentações, tornando-se um espaço de militância e formação política, artística e cultural na cidade de Campinas. Desde seu início, a Mostra Luta! tem sido um espaço importante de articulação e troca de experiências entre seus participantes, com uma proposta política de combate às diversas formas de opressão.

No entanto, no ano de 2017, ocorreu um caso de violência contra a mulher no processo de organização da 10a Mostra Luta! Um dos integrantes da organização violentou sexualmente uma das organizadoras, o qual foi notificado e denunciado. Parte do coletivo organizador, em conjunto com diversos movimentos sociais da cidade de Campinas, apoiou a organizadora da Mostra, vítima da agressão sexual. Entretanto, outra parte da organização não reconheceu as violências cometidas. Em virtude deste posicionamento, o coletivo do qual a mulher agredida faz parte e os coletivos que apoiaram a denúncia se retiraram da organização da 10ª Mostra Luta, que ficou em suspenso.

Porém, em outubro de 2017, começa a circular a divulgação da “décima” Mostra Luta! Para nosso espanto, apesar de seu texto de apresentação mencionar a “luta contra o patriarcado e o machismo”, sua programação pouco aborda a luta das mulheres, mesmo após a violência ocorrida dentro da própria organização. Para nosso espanto (ainda maior!), descobrimos que o acusado de violência sexual está integrando a organização do evento.

A Mostra Luta! que defendemos é um espaço de luta contra as opressões. Por isso, consideramos inadmissível que o caso de violência ocorrido seja silenciado por parte da organização e que a 10ª Mostra Luta! continue a ser organizada sem posicionamento contra essa violência. Também consideramos inaceitável que o agressor continue na organização da Mostra Luta! Partimos dos princípios de que o respeito à militante agredida e a menor dúvida em relação ao comportamento violento e machista do acusado seriam razões suficientes para que este integrante fosse impedido de participar do coletivo organizador. Além disso, este fato explicita a necessidade de se aprofundar o debate sobre patriarcado, opressão e violência contra a mulher. Ao não fazê-lo ou fazê-lo de forma tímida, a atual organização da 10a Mostra Luta! se exime de encarar uma das questões centrais que permeiam todas as lutas contra exploração e opressão. É com este intuito que tantos militantes participaram da organização da Mostra desde seu início e ao longo dos últimos 10 anos, alguns dos quais assinam esta carta aberta.

O posicionamento da atual organização da Mostra Luta! corrobora com o histórico silenciamento dentro das organizações de esquerda sobre as violências cometidas por homens contra mulheres nestes espaços, protegendo os agressores e isolando, ou até mesmo intimidando, as agredidas. Não aceitaremos! No regime patriarcal onde vivemos, os homens violentam mulheres e na esmagadora maioria dos casos seguem suas vidas normalmente, com apoio do meio onde circulam, sem nem mesmo se retratar sobre as agressões que cometem. Em suma, na maioria dos casos a mulher violentada continua a ser punida. No caso em questão a mulher violentada foi intimidada por diversos militantes e deixou de participar da organização da décima Mostra Luta!, espaço ocupado pelo agressor. Para esse contexto, dizemos: não!

Atualmente 500 mil pessoas são estupradas no Brasil (IPEA, 2014
http://ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/140327_notatecnicadiest11.pdf). A maioria das pessoas vitimizadas são mulheres e a maioria dos agressores são homens. Helena Hirata, no Dicionário Crítico do Feminismo, afirma: “As violências praticadas contra as mulheres devido ao seu sexo assumem múltiplas formas. Elas englobam todos os atos que, por meio de ameaça, coação ou força, lhes infligem na vida privada ou pública, sofrimentos físicos, sexuais ou psicológicos com a finalidade de intimidá-las, puni-las, humilhá-las, atingi-las na sua integridade física ou na sua subjetividade”. É urgente que a sociedade se transforme para que todos os espaços da vida social sejam seguros para as mulheres. Não toleraremos violências dentro dos espaços de militância e ativismo e em nenhum outro espaço. A condição de sujeito das mulheres não será minada.

Por estes motivos, não reconhecemos a legitimidade dessa “décima” Mostra Luta! E defendemos que este evento volte a ser um espaço legítimo de fortalecimento das diversas lutas sociais, abordando de forma aberta e profunda todos os temas sobre os quais as esquerdas necessitam como tanta urgência debater e refletir.

A noite não adormecerá

jamais nos olhos das fêmeas

pois do nosso sangue-mulher

de nosso líquido lembradiço

em cada gota que jorra

um fio invisível e tônico

pacientemente cose a rede

de nossa milenar resistência”

Conceição Evaristo

Assinam esta carta:

Casa sem Preconceitos – Reduzindo Danos e Promovendo Cidadania

Promotoras Legais Populares Cida da Terra

Coletivo de Mulheres Flores do DIC

Coletivo das Vadias de Campinas

Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas e Região

Visibilidade Lésbica Campinas

Camdança – Festival de Dança Contemporânea de Campinas e Região

Coletivo de Mídia Livre Vai Jão

Coletivo Maloca Arte e Cultura

Semana do Audiovisual Campinas

Quilombo Urbano OMG

Coletivo Rosa Lilás

Coletivo Transtornar

Coletivo Ateliê TransMoras

André Goulart

Carolina Pinho

Militantes que compuseram a organização da Mostra Luta! desde sua fundação, em diferentes anos, alguns até o ano de 2017:

Ana Elisa Correa

Cristina Alvares Beskow

Daniela Alvares Beskow

Diana Helene Ramos

Denis Forigo

Gabriel de Barcelos

Geisa Marques

Rafael Jorge

Vandre Paladini Ferreira

Jefferson Vasques

Link para carta denúncia publicada em junho de 2017: http://midialivrevaijao.art.br/os-estupros-dos-amores-politicos-ideologicos-ou-sobre-o-mal-estar-do-movimento-social-frente-a-denuncia-de-violencia-machista/

Outubro de 2017

Link permanente para este artigo: http://midialivrevaijao.art.br/carta-aberta-a-atual-organizacao-da-mostra-luta-e-populacao-de-campinas/

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